
Você já se perguntou por que as bandas nacionais não focam seus temas no folclore brasileiro, mas sim no europeu? Já ouviu uma música sobre o Saci ou qualquer outra figura mítica do nosso país? Acho que a culpa de tudo são dos dragões, claro, já que não temos este tipo de coisa por aqui, e como fazer uma música de Heavy Metal sem dragões? Além do que, “O Senhor dos Anéis” é muito mais legal do que “A turma do Pererê”, do Ziraldo.
O pior de tudo é que o folclore brasileiro é sombrio, mas da maneira que nos foi passado, através de programas como “O sítio do Pica-pau amarelo”, nos apresentado por uma espiga de milho que conversa com uma boneca de pano, perde completamente este lado obscuro, se tornando infantil. Aposto que quem foi criado em uma pequena cidade do interior já teve muito medo do Curupira ou da Mula-sem-cabeça quando entrou no mato de noite. Em lua cheia ter medo do lobisomem é praxe, apesar deste ser um personagem mais “globalizado”.
Claro que na Europa também existe este lado infantil do folclore, mas o problema é que por aqui não existe lado adulto. Praticamente todos os personagens míticos brasileiros tinham a função de proteger nossas florestas de caçadores e lenhadores, mas agora são só ilustrações e livros de História da alfabetização. Afinal quase não temos mais floresta, e quem entra nelas, tem mais medo de ladrão do que qualquer outra coisa. Ultimamente nem o Homem-do-saco assusta mais que ladrão (quem de vocês se pegou pensando “Homem-do-saco?, que coisa infantil!”).
Outro fator que contribui para que as bandas de Metal deixem de lado o folclore brasileiro é a falta de temas épicos, grandes batalhas e a exagerada presença de travessuras que os personagens gostam de aprontar. Claro que esta última é uma característica muito forte de personagens como Baco ou o próprio demônio, que gostam de confundir as pessoas, porém o jardim dos outros é mais bonito. O nosso Saci acaba tomando fama de mais infantil ainda, mesmo fumando um cachimbo igual ao dos Hobbits de J.R.R. Tolkien.
O escritor inglês acima citado também se dedicou aos livros infantis, conquistando uma geração de crianças com suas míticas histórias. Já o nosso Tolkien, o Monteiro Lobato, não se preocupou em escrever o seu “Senhor dos Anéis”, dedicando exclusivamente sua criatividade e a pesquisa das figuras míticas brasileiras ao “Sítio do Pica-pau amarelo”. Nem sequer um “Senhor dos Sacis” ou um “Saci dos Anéis” ele escreveu. Ai ai... Se pelo menos nós tivéssemos Dragões por aqui...
Texto: Rafael Duarte
Ilustração: Hellder Andrade
Fonte: Novo Metal